Pai não entende nada

-Um biquíni novo?
-É, pai.
-Você comprou um no ano passado!
-Não serve mais, pai. Eu cresci.
-Como não serve? No ano passado você tinha 14 anos, este ano tem 15. Não cresceu tanto assim.
-Não serve, pai.
-Está bem. Toma o dinheiro. Compra um biquíni maior.
-Maior não, pai. Menor.
Aquele pai, também, não entendia nada.

(O melhor das comédias da vida privada, de Luís Fernando Verissimo)

 

Arcadismo ou Neoclassicismo (séc. XVIII)

Índice

Referências históricas

Características

Autores

Sinopse

 

 

"Devemos imitar e seguir os Antigos: assim no-lo ensina Horácio, no-lo dita a razão;e o confessa todo o mundo literário"

 

 

--Correia Garção

 

Também conhecido por Setecentismo (dos anos 1700), este estilo traduz a busca do natural e do simples com a adoção de esquemas rítmicos mais graciosos. Este movimento traduz a crítica da burguesia culta aos abusos da nobreza e do clero.

A busca do campo pela arte é uma forma de resgate de um bem perdido pelo surgimento das cidades. Assim justifica-se como principal característica o bucolismo, elevando a vida despreocupada e idealizada nos campos.

O mito do homem natural, bom selvagem, do herói pacífico representa certa oposição aos abusos de juízes, políticos e clero. Essa politização do movimento apresenta-se também através dos poetas árcades que eram participantes da Conjuração Mineira.

Referências históricas

Século das Luzes propaga a ciência, o saber e o progresso e crença de que o bem-estar coletivo só pode advir da razão.

Influência da teoria de Rousseau do bom selvagem (origem do nativismo)

Influência de Horácio com "Fugere urbem" (fugir da cidade).

Revolução Industrial, urbanização e independência dos Estados Unidos em 1776

Movimentos de revolta em muitas colônias da América Latina como a Inconfidência Mineira.

No Brasil - mineração, Inconfidência, poetas árcades e Aleijadinho.

Transferência do centro econômico do Nordeste para Rio de Janeiro e Minas Gerais, em particular Vila Rica.

Características

Literatura simples, opondo-se aos exageros e rebuscamentos do Barroco. Os temas também são simples e comuns aos seres humanos: amor, morte, casamento, solidão. As situações mais freqüentes apresentam um pastor abandonado pela amada, triste e queixoso.

Volta aos modelos clássicos greco-latinos da Antigüidade e aos renascentistas. Acreditavam ser a arte uma cópia da natureza, refletida através da tradição clássica. Por isso a presença da mitologia pagã, exceto em Basílio da Gama e Santa Rita Durão, além de frases latinas.

carpe diem - pastor, ciente da passagem do tempo, convida a pastora a gozar o momento presente

locus amoenus - o lugar ameno, onde se encontra a paz para o amor

 

 

"Apolo já fugiu do Céu brilhante, / Já foi Pastor de gado"

 

 

--Tomás Antônio Gonzaga

 

A vida simples, bucólica, pastoril, busca do locus amoenus (lugar ameno) era só um estado de espírito, uma vez que todos os poetas árcades moravam na cidade. São comuns metamorfoses: transformações de seres humanos em entes naturais (ex. conversão de pastor em rio na Fábula do Ribeirão do Carmo, de CMC).

O fingimento poético justifica o uso de pseudônimos pastoris. Tomás Antônio Gonzaga era o poeta Dirceu e Cláudio Manuel da Costa, o guardador de rebanhos Glauceste Satúrnio.

Quanto à forma, usavam muitas vezes sonetos com versos decassílabos, rima optativa e a tradição da poesia épica.

Autores

Cláudio Manuel da Costa (1729-1789)

Introdutor do Arcadismo no Brasil. Em Lisboa, onde convive com as primeiras manifestações árcades. Em 1768, lança o livro Obras e funda a Arcádia Ultramarina, marcos iniciais do Arcadismo no Brasil. Poeta de transição, ainda muito preso ao Barroco, era grande amigo de Tomás Antônio Gonzaga, como atesta a poesia deste. Seu pseudônimo era Glauceste Satúrnio e o de sua musa era Nise.

Preso em 1789, é acusado de reunir os conjurados da Inconfidência Mineira. Após supostamente delatar seus colegas, é encontrado morto na cela, um caso de suicídio até hoje nebuloso.

Estilo : geralmente sonetos, hipérbatos, antíteses e figuras sonoras.

Na citação a seguir, está presente um elogio ao campo, lugar idealizado pelos árcades.

"Quem deixa o trato pastoril, amado, / Pela ingrata civil correspondência, / Ou desconhece o rosto da violência, / Ou do retiro da paz não tem provado."

Obras Principais : Poesias, Labirinto de Amor, 1753, Obras Poéticas, 1768, Vila Rica, 1839

José Basílio da Gama (1741-1795)

Poeta mineiro, estudou com os Jesuítas no RJ. Em Roma e ingressou na Arcádia Romana, adotando o pseudônimo de Termindo Sipílio. Escapou de acusações de jesuitismo e do dregredo em Angola, escrevendo elogios ao casamento da filha do Marquês de Pombal. Escreveu, em 1769, O Uraguai, sendo a segunda passagem uma das mais famosas de sua obra: a morte de Lindóia.

 

 

"Na idade que eu, brincando entre os pastores, / Andava pela mão e mal andava, / Uma ninfa comigo então brincava, / Da mesma idade e bela como as flores."

"Açouta o campo coa ligeira cauda / O irado monstro, e em tortuosos giros / Se enrosca no cipreste, e verte envolto / Em negro sangue o lívido veneno. / Leva nos braços a infeliz Lindóia / O desgraçado irmão, que ao despertá-la / Conhece, com que dor! No frio rosto / Os sinais do veneno, e vê ferido / Pelo dente sutil o brando peito."

 

 

--O Uraguai

 

Obras Principais:

  • O Uraguai, 1769

Inovação no tema contemporâneo para um poema épico: exaltar o Marquês de Pombal e sua política, e criticar os jesuítas. No poema é narrada, apesar de ainda exaltar a natureza (que não chega a ser bucólica) e o bom selvagem (instigados pelos jesuítas espanhóis), a luta de portugueses e espanhóis contra os índios dos Sete Povos das Missões. No drama principal, além dos personagens jesuítas caricaturizados e do herói português que comandou a tomada, os índios Sepé (o famoso Sepé Tiaraju), Cacambo e Lindóia. Sepé morre logo no começo e depois o também guerreiro Cacambo morre. Lindóia, que era sua esposa, fica extremamente deprimida e deixa que uma cobra a pique.

  • Epitalâmio às núpcias da Sra. Da. Maria Amália, 1769

Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810)

Conhecedor dos princípios iluministas, ocupa, em Vila Rica, o cargo de ouvidor (juiz da época). Envolvido na Inconfidência, é preso em 23/05/1789 e mandado para a prisão no RJ. É deportado para a África em 1792 e lá se casa com uma rica herdeira, recupera fortuna e influências e morre.

Produziu pouco, exceto no curto tempo em que esteve em MG. Apaixonado por Maria Joaquina Dorotéia de Seixas, escreveu Marília de Dirceu em sua homenagem. Ele ia casar-se com ela e partir para a BA assumir um cargo de desembargador, mas foi preso uma semana antes.

Segundo suas poesias ele não participava da Conjuração, apesar de ser amigo de Cláudio Manuel da Costa. Ainda assim, era acusado de ser o mais capaz de dirigir a Inconfidência.

 

 

"Eu vi o meu semblante numa fonte, / Dos anos ainda não está cortado, / Os Pastores, que habitam este monte, / Respeitam o poder de meu cajado."

 

 

--Marília de Dirceu

 

"Assim o nosso chefe não descansa / De fazer, Doroteu, no seu governo, / Asneiras sobre asneiras e, entre as muitas, / Que menos violentas nos parecem, / Pratica outras que excedem muito e muito / As raias dos humanos desconcertos."

 

 

--Cartas Chilenas

 

Obras principais:

  • Marília de Dirceu

Esta é uma obra pré-romântica; o autor idealiza sua amada e supervaloriza o amor, mas é árcade em todas as outras características. É um monólogo de Dirceu em que Marília é um vocativo.

A primeira de suas três partes é dividida em 33 liras. Nela, o autor canta a beleza de sua "pastora" Marília (na verdade, Maria Dorotéia Joaquina de Seixas). Descreve sempre apenas sua beleza (que compara à de Afrodite) e usa de várias figuras mitológicas. O autor também se dirige a seus amigos "Glauceste" e "Alceu" (Cláudio Manuel da Costa e Alvarenga Peixoto), seus "colegas pastores". O bucolismo nesta parte da obra é extremo, com referências permanentes ao campo e à vida pastoril idealizada pelos árcades. A segunda parte é dividida em 37 liras e foi escrita na prisão, após 1789. Nela o bucolismo é diminuído, mas a adoração a Marília continua, apesar de tratar mais de Dirceu do que da pastora. Nesta parte, existe a angústia da separação e o sentimento de ter sido injuriado, o que aumenta a declarada paixão pela amada. Aparece também a angústia da separação que sofreu de seu amigo "Glauceste" (em regime de incomunicabilidade, não sabia do suicídio de Cláudio Manuel da Costa.). A terceira parte não possui apenas suas 8 liras; tem também sonetos e outras formas de poesia. Mas apenas as 8 liras possuem referências a Marília e quando elas acabam, começam a aparecer outras poesias de "Dirceu".

  • Cartas Chilenas

São 13 poemas satíricos com estrutura de carta (epístolas) escritos por Critrilo (pseudônimo do autor por muito tempo obscuro). Os desmandos, atos corruptos, nepotismo, abusos de poder, falta de conhecimento e tantos outros erros administrativos, jurídicos e morais são relatados em versos decassílabos do "Fanfarrão Minésio" (o governador de Minas Gerais, Luís Cunha Meneses) no governo do "Chile" (a cidade de Vila Rica).

José de Santa Rita Durão (1722-1784)

Estudou Teologia em Coimbra, onde teve grande participação política, e prega violento sermão contra a Companhia de Jesus. O Frei, orador e poeta pode ser considerado o criador do indianismo no Brasil. Seu poema épico Caramuru é a primeira obra a ter como tema o habitante nativo do Brasil; foi escrita ao estilo de Camões, imitando um poeta clássico assim como faziam os outros neoclássicos.

Obras Principais:

  • Caramuru - Poema Épico do Descobrimento da Bahia (1781)

Conforme diz o nome completo, a obra pretende descrever o processo de descobrimento por Diogo Álvares Correia, vítima de um naufrágio no litoral baiano. Há uma exaltação da terra brasileira, com descrições que lembram a literatura informativa do Quinhentismo. Apesar da influência camoniana, não se usa a mitologia pagã. Registra os costumes tribais dos índios, além de descrever a fauna e a flora brasileiras.

Composto em dez cantos e versos decassílabos, tem como heróis Diogo Álvares (Caramuru), Paraguaçu (com quem Diogo se casa e vai para Paris) e Moema (a bela amante preterida no casamento que morre nadando atrás de Diogo).

Inácio José de Alvarenga Peixoto (1744?-1792)

Em sua vida reproduziu o ideal árcade de se refugiar no campo, pois deixou a magistratura, ocupando-se da lavoura e mineração no MG. Alceu era seu pseudônimo.

Foi implicado na Inconfidência Mineira junto com seu parente, Tomás Antônio Gonzaga, e seu amigo Cláudio Manuel da Costa. Condenado a morte, teve a sentença comutada em degredo para Angola, onde morreu num presídio. Sua obra artística foi pequena, mas bem acabada.

"Eu vi a linda Jônia e, namorado, / Fiz logo voto eterno de querê-la; / Mas vi depois a Nise, e é tão bela, / Que merece igualmente o meu cuidado."

Sinopse

Marco inicial do Arcadismo no Brasil: publicação de Obras, de Cláudio Manuel da Costa e a fundação da Arcádia Ultramarina, em Vila Rica.

Marco final: 1808 com a vinda da Família Real para o Rio de Janeiro

 

"Educar", sem violência?

 

*Arun Gandhi

 

"Eu tinha 16 anos e vivia com meus pais, na instituição que meu avô havia fundado, e que ficava a 18 milhas da cidade de Durban, na África do Sul. Vivíamos no interior,em meio aos canaviais, e não tínhamos vizinhos, por isso minhas irmãs e eu sempre ficávamos entusiasmados com a possibilidade de ir até a cidade para visitar os amigos ou ir ao cinema.

Certo dia meu pai pediu-me que o levasse até a cidade, onde participaria de uma conferência durante o dia todo. Eu fiquei radiante com esta oportunidade. Como íamos até a cidade, minha mãe me deu uma lista de coisas que precisava do supermercado e, como passaríamos o dia todo, meu pai me pediu que tratasse de alguns assuntos pendentes, como levar o carro à oficina.

Quando me despedi de meu pai ele me disse: "Nos vemos aqui, às 17 horas, e voltaremos para casa juntos".

Depois de cumprir todas as tarefas, fui até o cinema mais próximo. Distraí-me tanto com o filme (um filme duplo de John Wayne) que esqueci da hora. Quando me dei conta eram 17h30. Corri até a oficina, peguei o carro e apressei-me a buscar meu pai. Eram quase 6 horas.

Ele me perguntou ansioso: "Porque chegou tão tarde?"

Eu me sentia mal pelo ocorrido, e não tive coragem de dizer que estava vendo um filme de John Wayne. Então, lhe disse que o carro não ficara pronto, e que tivera que esperar. O que eu não sabia era que ele já havia telefonado para a oficina. Ao perceber que eu estava mentindo, disse-me: "Algo não está certo no modo como o tenho criado, porque você não teve a coragem de me dizer a verdade. Vou refletir sobre o que fiz de errado a você. Caminharei as 18 milhas até nossa casa para pensar sobre isso".

Assim, vestido em suas melhores roupas e calçando sapatos elegantes, começou a caminhar para casa pela estrada de terra sem iluminação. Não pude deixá-lo sozinho...guiei por 5 horas e meia atrás dele...vendo meu pai sofrer por causa de uma mentira estúpida que eu havia dito.

Decidi ali mesmo que nunca mais mentiria.

Muitas vezes me lembro deste episódio e penso: "Se ele tivesse me castigado da maneira como nós castigamos nossos filhos, será que teria aprendido a lição?" Não, não creio. Teria sofrido o castigo e continuaria fazendo o mesmo. Mas esta ação não-violenta foi tão forte que ficou impressa na memória como se fosse ontem.

Este é o poder da vida sem violência".

 

* neto de Mahatma Gandhi e fundador do MK Gandhi Institute, contou a seguinte história sobre a "vida sem violência", na forma da habilidade de seus pais, numa palestra proferida em junho de 2002 na Universidade de Porto Rico.

 

 

 

 

Os Lusíadas - A epopeia camoniana

Introdução

Para cantar a história do povo português, Camões foi buscar na antiguidade clássica a forma adequada:

- o poema épico: gênero poético narrativo e grandiloqüente, desenvolvido pelos poetas da antigüidade para cantar a história de todo um povo.

Histórico do poema épico

- A Ilíada e a Odisséia, atribuídas a Homero (Século VIII a. C), através da narração de episódios da Guerra de Tróia, contam as lendas e a história heróica do povo grego.

- Já a Eneida, de Virgílio (71 a 19 a.C.), através das aventuras do herói Enéas, apresenta a história da fundação de Roma e as origens do povo romano.

Ao compor o maior monumento poético da Língua Portuguesa, Os Lusíadas, publicado em 1572, Camões copia a estrutura narrativa da Odisséia de Homero, assim como versos da Eneida de Virgílio.

Divisão formal da obra

1 - Utiliza a estrofação em Oitava Rima, inventada pelo italiano Ariosto, que consiste em estrofes de oito versos, rimadas sempre da mesma forma: abababcc.

2 - A epopéia se compõe de 1102 dessas estrofes, ou 8816 versos, todos decassílabos, divididos em 10 cantos.

O poema se organiza tradicionalmente em cinco partes:
 
1. Proposição (Canto I, Estrofes 1 a 3)
Apresentação da matéria a ser cantada: os feitos dos navegadores portugueses, em especial os da esquadra de Vasco da Gama e a história do povo português.

2. Invocação (Canto I, Estrofes 4 e 5)
O poeta invoca o auxílio das musas do rio Tejo, as Tágides, que irão inspirá-lo na composição da obra.

3. Dedicatória (Canto I, Estrofes 6 a 18)
O poema é dedicado ao rei Dom Sebastião, visto como a esperança de propagação da fé católica e continuação das grandes conquistas portuguesas por todo o mundo.

4. Narração (Canto I, Estrofe 19 a Canto X, Estrofe 144)
A matéria do poema em si. A viagem de Vasco da Gama e as glórias da história heroica portuguesa.

5. Epílogo (Canto X, Estrofes 145 a 156)
Grande lamento do poeta, que reclama o fato de sua “voz rouca” não ser ouvida com mais atenção.


Comentário sobre alguns episódios

O Consílio dos
Deuses no Olimpo (I, 20-41)

Reunidos sob a presidência de Júpiter, os deuses discutem o futuro das navegações portuguesas e da viagem de Vasco da Gama. Baco é contrário aos portugueses, pois teme
que eles suplantem seus feitos no Oriente. Também Netuno (deus do mar) fará depois oposição aos navegadores, invejoso de seus sucessos marítimos. Vênus (deusa do amor) e Marte (deus da guerra) to mam partido dos lusos, considera dos pela deusa como os maiores aman tes e, por
tanto, seus protegi dos, e tidos por Mar te como os guerreiros mais valentes. Após o debate, Júpiter decide a favor dos portugueses. Baco, inconformado, desce à Terra e tenta impedir o êxito da viagem, armando ciladas e ataques traiçoeiros.

❑ Inês de Castro (III,118-135)

Episódio de natureza Iírico-amorosa, simboliza a força e a veemência do amor em Portugal.
Valendo-se de fontes medievais (as Trovas, de Garcia de Resende) e clássicas (a tragédia A Castro, de Antônio Ferreira), Camões, pela boca de Vasco da Gama, inscreve na epopeia a narrativa lírica da jovem condenada pelo crime de amar. Inês, jovem da pequena nobreza de
Castela, apaixonou-se pelo Príncipe D. Pedro (depois D. Pedro I, de Portugal). A corte portuguesa opunha-se a tal união, e o Rei D. Afonso IV, mesmo reconhecendo a inocência da
mo ça, não impede sua morte. Pedro, na época em trabalhos de guerra na África, regressa a Portugal e encontra a amada morta (de onde vem a expressão popular “agora Inês é morta”). Diz a lenda que, tresloucado, o príncipe teria desenterrado Inês, coroando-a rainha após a morte, e teria, ainda, obrigado a corte a beijar a mão da rainha-defunta. O certo é que, assumindo o trono, foi um dos reis mais cruéis do país, obcecado pela vingança contra os algozes da amada.

❑ O Velho do
Restelo (IV, 94-104)

Quando as naus de Vasco da Gama se despediam do porto de Belém, um velho, o Velho do Restelo, elevando a voz, manifestou sua oposição à viagem às Índias. A sua fala pode ser interpretada como a sobrevivência da mentalidade feudal, agrária, oposta ao expansionismo e
às navegações, que configuravam os interesses da burguesia e da monarquia. É a expressão rigorosa do conservadorismo. Certo é que Camões, mesmo numa epopeia que se propõe
a exaltar as Grandes Navegações, dá a palavra aos que se opõem ao projeto expansionista.

❑ O Gigante
Adamastor (V, 37-60)

Quando a esquadra de Vasco da Gama atravessava o Cabo das Tormentas, passando do Oceano Atlântico para o Índico, um monstro dis forme e ameaçador interpela os navegadores, condenando sua ou sa dia, profetizando desgraças e miséria. O Gigante narra, a seguir, a causa de sua transformação na figura monstrous que guarnecia o Cabo das Tormentas: tendo-se apaixonado por Tétis (filha de Dóris e Nereu), foi por ela repudiado e tentou tomá-la à força. Derrotado e punido pelos deuses, foi transformado num monstro de pedra. Inspirada na mitologia clássica (Homero e Ovídio), é uma das alegorias mais ricas do poema. Simboliza, no plano histórico, a superação, pelos portugueses, do medo do “Mar Tenebroso”, das superstições medievais. No plano lírico, desenvolve o tema do amante infeliz e desenganado (Tétis era esposa de Peleu, e enganou o Gigante); o amor-tragédia. Curiosamente, o primeiro navegante a atravessar o Cabo das Tormentas, Bartolomeu Dias, morreu exatamen te ali, quando, 12 anos de pois, em 1500, comandava uma das quatro naus que Pedro Álvares Cabral perdeu na costa  africana, num naufrágio. Era a vingança do Gigante, ou do Cabo da Boa Esperança, como o batizou Bartolomeu Dias, em 1488.

❑ A llha dos
Amores (IX, 18 a X, 143)

Após a conquista do Oriente, lançadas as sementes do Império Português que aí surgiria, os navegadores estão voltando a Portugal. Vênus, entretanto, prepara-lhes uma surpresa, como recompensa aos seus esforços e sacrifícios. Numa ilha paradisíaca, os navegadores são recebidos pelas ninfas do mar, que Cupido, por ordem de Vênus, fez enamoradas dos portugueses. Emoldurados por uma natureza exuberante, vivem instantes de prazeres ilimitados.
Homenageados por Tétis com um banquete, uma ninfa profetiza os futuros feitos portugueses. Após, Tétis, do alto de um monte, mostra a Vasco da Gama a Máquina do Mundo, espécie de miniatura do Universo. Particularizando o globo terrestre, aponta os lugares onde os portugueses iriam fincar sua bandeira, incluindo aqui o Descobrimento do Brasil.

Esse longo episódio é riquíssimo em sugestões e significados. Simboliza a elevação dos navegadores à condição de semideuses,  interseccionando os planos histórico e mitológico. Na exibição da Máquina do Mundo, os portugueses tornam-se senhores dos segredos do Universo, e Vasco da Gama triunfa mais uma vez sobre Adamastor, tornando-se amante de Tétis, ninfa do mar. Inspirado em Virgílio, Horácio e Ovídio, o episódio é um hino ao amor e à sensualidade.

EPISÓDIO DE INÊS DE CASTRO
(fragmentos)


Passada esta tão próspera vitória1,
Tornado Afonso à Lusitana Terra,
A se lograr da paz com tanta glória
Quanta soube ganhar na dura guerra,
O caso triste e digno da memória,
Que do sepulcro os homens desenterra,
Aconteceu da mísera e mesquinha
Que depois de ser morta foi Rainha.
(III, 118)

Tu, só tu, puro Amor, com força crua,
Que os corações humanos tanto obriga,
Deste causa à molesta2 morte sua,
Como se fora3 pérfida inimiga.
Se dizem, fero Amor, que a sede tua
Nem com lágrimas tristes se mitiga4,
É porque queres, áspero e tirano,
Tuas aras5 banhar em sangue humano.
(III, 119)

TEXTOS

PORTUGUÊS E
Estavas, linda Inês, posta em sossego,
De teus anos colhendo doce fruito6,
Naquele engano7 da alma, Iedo e cego,
Que a Fortuna8 não deixa durar muito,
Nos saudosos campos do Mondego9,
De teus formosos olhos nunca enxuito10,
Aos montes ensinando e às ervinhas
O nome que no peito escrito tinhas.
(III, 120)


Do teu Príncipe ali te respondiam
As lembranças que na alma Ihe moravam,
Que sempre ante seus olhos te traziam,
Quando dos teus formosos se apartavam;
De noite, em doces sonhos que mentiam,
De dia, em pensamentos que voavam;
E quanto, enfim, cuidava e quanto via
Eram tudo memórias de alegria.
(III, 121)

De outras belas senhoras e Princesas
Os desejados tálamos enjeita,
Que tudo, enfim, tu, puro amor, desprezas,
Quando um gesto suave te sujeita.
Vendo estas namoradas estranhezas,
O velho pai sisudo, que respeita
O murmurar do povo e a fantasia
Do filho, que casar-se não queria,
(III, 122)


Tirar Inês ao mundo determina,
Por lhe tirar o filho que tem preso,
Crendo com sangue só da morte indina11
Matar do firme amor o fogo aceso.
Que furor consentiu que a espada fina,
Que pôde sustentar o grande peso
Do furor Mauro12, fosse alevantada
Contra hu˜a fraca dama delicada?
(III, 123)

(...)

Vocabulário e Notas

1 – Esta... vitória: refere-se à vi tória dos cris -
tãos na Batalha do Sa lado.
2 – Molesto: lastimoso, la men tável.
3 – Fora: fosse.
4 – Mitigar: abrandar.
5 – Ara: altar.
6 – Fruito: fruto.
7 – Engano: êxtase, enlevo.
8 – Fortuna: na crença dos antigos, deusa que
presidia ao bem e ao mal; destino, fado.
9 – Mondego: rio que banha Coimbra.
10 – Enxuito: enxuto.
11 – Indino: indigno.
12 – Mauro: mouro.

EPISÓDIO DO VELHO DO RESTELO

Mas um velho, de aspecto venerando,
Que ficava nas praias, entre a gente,
Postos em nós os olhos, meneando
Três vezes a cabeça, descontente,
A voz pesada um pouco alevantando,
Que nós no mar ouvimos claramente,
C’um saber só de experiências feito,
Tais palavras tirou do experto1 peito:
(IV, 94)

“Ó glória de mandar, ó vã cobiça
Desta vaidade, a quem chamamos Fama!
Ó fraudulento gosto, que se atiça
C’uma aura popular, que honra se chama!
Que castigo tamanho e que justiça
Fazes no peito vão que muito te ama!
Que mortes, que perigos, que tormentas,
Que crueldades neles exprimentas2!
(IV, 95)

Condenando a temeridade de se
lançarem os portugueses na conquis
ta do Oriente, adverte para o pe -
rigo representado pelos árabes e
amal diçoa as navegações:
Não tens junto contigo o Ismaelita3,
Com quem sempre terás guerras sobejas?
Não segue ele do Arábio a Lei maldita,
Se tu pola4 de Cristo só pelejas?
Não tem cidades mil, terra infinita,
Se terras e riqueza mais desejas?
Não é ele por armas esforçado,
Se queres por vitórias ser louvado?
(IV, 100)

Deixas criar as portas o inimigo,
Por ires buscar outro de tão longe,
Por quem se despovoe o Reino antigo,
Se enfraqueça e se vá deitando a longe!
Buscas o incerto e incógnito perigo
Por que a Fama te exalte e te lisonje
Chamando-te senhor com larga cópia,
Da Índia, Pérsia, Arábia e Etiópia.
(IV, 101)
Oh! Maldito o primeiro que, no mundo,
Nas ondas vela pôs em seco lenho5!
Digno da eterna pena do Profundo6,
Se é justa a justa Lei que sigo e tenho!
Nunca juízo algum, alto e profundo,
Nem cítara sonora de vivo engenho,
Te dê por isso fama nem memória,
Mas contigo se acabe o nome e glória!
(IV, 102)

Trouxe o filho de Jápeto7 do Céu
O fogo que ajuntou ao peito humano,
Fogo que o mundo em armas acendeu,
Em mortes, em desonras(grande engano!).
Quanto melhor nos fora, Prometeu,
E quanto para o mundo menos dano,
Que a tua estátua ilustre não tivera
Fogo de altos desejos que a movera!
(IV, 103)

Não cometera o moço miserando8
O carro alto do pai, nem o ar vazio
O grande arquitector com o filho9, dando,
Um, nome ao mar, e o outro, fama ao rio.
Nenhum cometimento alto e nefando
Por fogo, ferro, água, calma e frio,
Deixa intentado a humana geração.
Mísera sorte! Estranha condição!”
(IV, 104)

Vocabulário e Notas
1 – Experto: experiente, sá bio.
2 – Exprimentas: experimentas.
3 – Ismaelita: referente a Ismael, filho de Abraão,
segundo o Velho Testamento.
4 – Pola: pela.
5 – Seco lenho: embarca ção, na vio.
6 – Profundo: inferno.
7 – Filho de Jápeto: Prometeu.
8 – Miserando: digno de pena.
9 – Grande arquitector com o filho: Dédalo
(da mi to logia grega) e seu filho, Ícaro.



BARROCO NO BRASIL

- Inicia-se o Barroco brasileiro com o poema épico Prosopopeia de Bento Teixeira (1601). O poeta  viveu grande parte de sua vida no Brasil, em Pernambuco.

Resumo formal do poema

PROSOPOPÉIA é um poema épico com 94 estrofes, que exalta Jorge de Albuquerque Coelho, terceiro donatário da capitania de Pernambuco. Bento Teixeira imita Camões de maneira ruim, seu texto é cansativo e tem apenas valor histórico.

CONTEXTO HISTÓRICO DO BARROCO BRASILEIRO

* O Barroco domina durante todo o século XVII e metade do século XVIII, até 1768.

* Na literatura desenvolveu-se na Bahia e nas artes plásticas (esculturas) em Minas gerais
Com as obras do Aleijadinho (Antônio Francisco Lisboa), e na pintura do Mestre Ataíde.

BARROCO BRASILEIRO

* Movimento artístico e filosófico que surge com o conflito entre a Reforma Protestante e a Contra Reforma. Seu objetivo era propagar a religião através de uma arte de impacto, sinuosa, enfeitada ao extremo.

* Arte altamente contraditória.

A origem da palavra “barroco” é incerta. Para muitos, “barroco” era adjetivo que designava certas pérolas de superfície irregular e preço inferior. De qualquer forma há um valor depreciativo na palavra, que durante muito tempo foi usada para indicar uma arte e uma literatura “bizarra”

CARACTERÍSTICAS GERAIS DA LITERATURA BARROCA


* O homem dividido entre o desejo de aproveitar a vida e o de garantir um lugar no céu.
* Conflito existencial gerado pelo dilema do homem dividido entre o prazer pagão e a fé religiosa.
*Antropocentrismo x Teocentrismo
(homem X Deus, carne X espírito).

* Detalhismo e rebuscamento- a extravagância e o exagero nos detalhes.
* Linguagem rebuscada e trabalhada ao extremo, usando muitos recursos estilísticos e figuras de linguagem e sintaxe: hipérboles, metáforas, antíteses e paradoxos, para melhor expressarem a comparação entre o prazer passageiro da vida e a vida eterna.

* Regido por duas filosofias: Cultismo e Conceptismo.

- Cultismo é o jogo de palavras, o uso culto da língua, predominando inversões sintáticas.
- Conceptismo são os jogos de raciocínio e de retórica que visavam melhor explicar o conflito dos opostos.



PRINCIPAIS REPRESENTANTES DO BARROCO BRASILEIRO

POESIA


GREGÓRIO DE MATOS GUERRA nasceu em Salvador, em 1663, estudou em Coimbra, exerceu cargos de magistratura em Portugal até, 1681, quando voltou definitivamente para o Brasil, provavelmente fugindo de inimigos angariados por suas poesias satíricas. Na Bahia, voltou a sofrer perseguições devido a suas sátiras. Por isso ganhou o apelido de Boca do Inferno ou Boca de Brasa

TEMAS DA POESIA GREGORIANA:

POESIA RELIGIOSA: mostra o autor envolvido pelo sentimento de culpa e de arrependimento, implorando perdão.

POESIA SATÍRICA: mostra a crítica severa de uma sociedade marcada pela mediocridade e pela desonestidade, nasce de um sujeito lírico que adota um ponto de vista conservador e preconceituoso. Seus poemas satíricos renderam-lhe o apelido de Boca do Inferno.

POESIA ERÓTICA: mostra o uso de palavrões e alusões obscenas, mesmo em textos sutis onde a ambigüidade aparece repleta de safadeza.

A PROSA BARROCA BRASILEIRA

PADRE ANTÔNIO VIEIRA nasceu em Lisboa, em 1608, chegou ao Brasil e se instalou em Salvador, iniciando seu noviciado na Companhia de Jesus.Efetivou uma política de defesa dos cristãos ?novos, procurando protegê-los da Inquisição em Portugal.
Sua extensa obra reflete seu envolvimento nos debates sociais e políticos de Portugal e do Brasil no século XVII. Os sermões e cartas, além de temas especificamente religiosos também manifestam questões polêmicas da época como: a luta pela independência portuguesa,, o confronto com holandeses no nordeste, a escravidão índia e negra, a defesa dos judeus e cristãos-novos contra a intolerância da Inquisição.

OBRAS: CARTAS E SERMÕES ? Sermão da Sexagésima , Sermão de Santo Antônio

Literatura Curso

Literatura

Auto da Barca do Inferno

2011-03-14 16:49
Auto da Barca do Inferno Gil Vicente   Márcia Lígia Guidin* Especial para Pedagogia & Comunicação Reprodução Inferno, detalhe de quadro português anônimo de 1520 Antes de mais nada, "auto" é uma...

Trovadorismo: resumo geral

2011-03-14 16:55
Introdução   Podemos dizer que o trovadorismo foi a primeira manifestação literária da língua portuguesa. Surgiu no século XII, em plena Idade Média, período em que Portugal estava no processo de formação nacional. Marco inicial  O marco inicial do Trovadorismo é a “Cantiga da...

Canções para exemplificação - Trovadorismo

2011-03-15 15:53
Canção de Amor Exemplo de lírica galego-portuguesa (de Bernal de Bonaval): "A dona que eu ame tenho por Senhoramostrade-me-a Deus, se vos em prazer for,se nao dade-me-a morte. A que tenho por lume destes olhos meuse porque choran sempr(e) amostrade-me-a Deus,se nao dade-me-a morte. Essa que Vós...

Trovadorismo: foto-aula

2011-03-16 19:38
Trovadorismo é a primeira manifestação literária-escolar em língua portuguesa, ainda que tenha suas origens na região provençal (atual sul da França). Seu surgimento ocorre concomitantemente com o nascimento do estado português. Veja a foto-aula:   manoelneves.com/2010/05/28/o-travadorismo/

Humanismo - Vídeos

2011-03-16 19:51
Para se divertir com o Humanismo, que tal assistir a um vídeo sobre o Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente?   Entre em:   www.youtube.com/watch?v=SUpHoFDpa4o&feature=related (Abertura) www.youtube.com/watch?v=r_LqVncMWds&feature=related (Capítulo...

Mafalda

2011-03-16 20:22
Uma quarentona supimpa: Mafalda sopra hoje 49 velinhas (eeeh…bem… é um de seus aniversários)     Fonte: http://blogs.estadao.com.br/ariel-palacios/uma-quarentona-supimpa-mafalda-sopra-hoje-49-velinhas-eeeh-bem-e-um-de-seus-aniversarios/ por Ariel Palacios Blog de Ariel palacios...

A intoxicação linguística

2011-03-17 15:09
  A intoxicação linguística – Traços do discurso capitalista Fonte: http://resistir.info/ .   *por Vicente Romano   1. A Economia dos Sinais 2. A Simplificação 3. Traços do discurso jornalístico actual 4. O pensamento mágico 5. O modo indicativo e imperativo 6. A perda do...

Demarcando território: a agenda do Prêmio Nobel e a ideologia dominante

2011-03-20 04:02 Demarcando território: a agenda do Prêmio Nobel e a ideologia  dominante *por Yuri Martins Fontes Brasil de Fato Edição 417 - de 24 de fevereiro a 2 de março     Em tempos de desespero que prenunciam o aprofundamento da crise capitalista iniciada em 2008, o famoso Prêmio...