O Cavaleiro da Esperança: Vida de Luiz Carlos Prestes – uma obra de valor histórico

31/10/2011 14:07

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Sábado, 22 de outubro de 2011

 

Por Anita Leocadia Prestes
 
 
O Cavaleiro da Esperança: Vida de Luiz Carlos Prestes, obra de Jorge Amado publicada pela primeira vez em espanhol, na Argentina, no ano de 1942, foi dedicada à minha avó Leocadia, mãe do biografado, “la madre heroica”, segundo Pablo Neruda. A dedicatória dizia: “Lejos de su hijo, en tierras que no son las suyas, sufre y lucha doña Leocadia Prestes. Escribi este libro, amiga, para que lo ofrezcas a la madre de Luiz Carlos Prestes como uma dádiva del Brasil”.
 
Era a primeira biografia do meu pai, da qual Jorge Amado se dizia orgulhoso, ao escrever de próprio punho uma outra dedicatória no exemplar destinado a Leocadia Prestes e enviado ao México, onde então morávamos minha avó, minha tia Lygia e eu. Vivíamos “os anos tormentosos” de nossas vidas, segundo palavras de Leocadia em carta dirigida ao filho, prisioneiro da ditadura Vargas.
 
Jorge Amado, que havia publicado aos dezenove anos, em 1931, seu primeiro livro, O país do Carnaval, participara das lutas contra o fascismo no Brasil e das jornadas promovidas pela Aliança Nacional Libertadora (ANL) durante o ano de 1935. Com a derrota do movimento, foi preso em 1936 e, novamente, em 1937, após o golpe que instaurou o Estado Navo. Seus livros foram proibidos no Brasil, inúmeros exemplares apreendidos pela polícia e queimados em praça pública em Salvador. Perseguido no país, Jorge Amado exilou-se na Argentina, onde escreveu a biografia de Prestes entre dezembro de 1941 e janeiro de 1942. A publicação em espanhol veio à luz em maio daquele ano pela Editora Claridad, de Buenos Aires. Proibida no Brasil, a obra em espanhol, passou a circular clandestinamente no país.
 
É o próprio autor que, no prefácio da primeira edição brasileira, publicada em 1945 pela Livraria Martins Editora, narra a história do livro:
Traduções para outras línguas foram feitas sobre a tradução espanhola; no Brasil, além dos exemplares daquela edição vendidos clandestinamente, por vezes por preços absurdos, apareceram cópias datilografadas e até em fac-símile fotográfico... Os exemplares aqui vendidos nunca chegaram a ser propriedade individual de alguém, viveram sempre de mão em mão. O povo se referia a este livro com os mais diversos nomes: Vida de são Luís, Vida do rei Luís, Travessuras de Luisinho etc. Depois também sua edição Argentina foi proibida e queimada em Buenos Aires, por ordem do governo Perón. Valorizaram-se ainda mais os exemplares que circulavam no Brasil. Houve quem vivesse do aluguel de exemplares.
Adiante, Jorge Amado destaca: “Na luta pela anistia, pela democracia e contra o Estado Novo, mas principalmente contra o fascismo, este livro foi uma arma”. Indiscutivelmente esse foi o grande papel desempenhado pela obra do famoso escritor brasileiro. Ele recorda: “Junta-se a tudo isso a emoção que ele [o livro] despertou na América espanhola, onde quebrou recordes de venda, e pode-se imaginar quanto não me envaideço dele, quanto não me orgulho de ser o seu autor”. Efetivamente, durante meses a fio, a edição espanhola foi o livro mais vendido na América Latina.
 
Para escrever a obra, Jorge Amado correspondeu-se com Leocadia e Lygia Prestes, no México, e consultou amigos e correligionários do biografado. A edição Argentina continha apêndice com documentos sobre diversos momentos da vida de Prestes, um mapa do Brasil com o traçado da Coluna Prestes e algumas fotos de Prestes, de seus familiares e de combatentes da Coluna. Adotando estilo semelhante ao empregado na biografia de Castro Alves, escrita um ano antes, o autor se dirige permanentemente a uma leitora imaginária, a quem chama de “amiga” e também de “negra”, com o intuito de falar diretamente ao povo brasileiro, apelando aos leitores para que assumam posição na luta pela democracia e pela liberdade. Jorge Amado escreve que “este não é nem pretende ser um livro frio”, mas uma obra escrita “com paixão, sobre uma pessoa amada”. Trata-se, pois, de uma biografia romanceada do Cavaleiro da Esperança, que como tal deve ser hoje apreciada e inserida, portanto, no momento histórico em que foi produzida.
 
No Brasil, o livro só pôde ser publicado após a decretação da anistia aos presos políticos em abril de 1945. Pessoalmente, tive o privilégio de, aos oito anos de idade, ser presenteada pelo autor com o exemplar no 1 dessa edição histórica, valorizada por dedicatória em que Jorge Amado me recomendava a “aprender na vida do [meu] Pai um exemplo de dignidade humana”. A edição brasileira continha um belo e original retrato de Prestes, obra do artista plástico Clóvis Graciano, assim como fotos e documentos que, em alguns casos, não haviam sido incluídos na edição Argentina.
 
Até o golpe militar de 1964, o livro teve várias reedições no Brasil. Na nona edição, publicada em 1956 pela Editorial Vitória, pertencente ao Partido Comunista Brasileiro, a capa foi ilustrada por expressiva gravura alusiva à Coluna Prestes, de autoria do artista rio-grandense Vasco Prado. Nessa edição foi incluído posfácio do autor, no qual é lembrado que, após a primeira edição brasileira, sucederam-se rapidamente outras seis edições. Assinalava-se ainda que a obra já havia sido até então traduzida para cerca de vinte idiomas diferentes e também adaptada para o rádio. Com o golpe reacionário de 1964, o livro desapareceu das livrarias, só voltando a ser publicado em 1979.
 
Sou testemunha de que várias gerações de jovens brasileiros, e também estrangeiros, tornaram-se revolucionários e aderiram ao comunismo, ingressando muitas vezes nos partidos comunistas dos seus países, sob o impacto provocado pela leitura da biografia de Luiz Carlos Prestes escrita por Jorge Amado. Em Portugal, durante a ditadura de Salazar, ele era leitura obrigatória dos militantes do Partido Comunista Português, para os quais a vida do Cavaleiro da Esperança – sua coragem, dignidade humana e dedicação sem limites à causa revolucionária – tornara-se um exemplo a ser seguido por todo comunista.
 
Na qualidade de historiadora, mas também de filha de Luiz Carlos Prestes, tenho me empenhado em pesquisar e escrever sobre a vida desse grande brasileiro, ainda pouco conhecido inclusive por seus compatriotas. Prestes foi um patriota, um revolucionário e um comunista convicto. Pablo Neruda escreveu a seu respeito: “Nenhum dirigente comunista da América Latina teve uma vida tão trágica e portentosa quanto Luiz Carlos Prestes”.
 
Como foi sempre coerente consigo mesmo e com os ideais revolucionários a que dedicou sua vida, sem jamais se dobrar diante de interesses menores ou de caráter pessoal, Prestes despertou o ódio dos donos do poder, que sempre procuraram criar uma história oficial cuja tônica tem sido a falsificação tanto de sua trajetória política como da história brasileira contemporânea. Entretanto, para o historiador comprometido com as lutas populares, com os interesses dos explorados e dos oprimidos, a meta deve ser outra: contribuir para a elaboração de outra história, comprometida não só com a evidência, mas também com o imperativo de construir um futuro de justiça social e liberdade para o nosso povo.
 
Para o historiador empenhado na elaboração de uma História do Brasil, para quem valoriza o papel destacado de Luiz Carlos Prestes nas lutas populares do século XX em nosso país, O Cavaleiro da Esperança: Vida de Luiz Carlos Prestes é um livro indispensável. Sua reedição é uma contribuição importante para compreender melhor uma época de nossa história, para que, aprofundando o conhecimento de nosso passado, as novas gerações de brasileiros possam transformar o presente, construindo o futuro ao qual Prestes dedicou sua vida.
 
FONTE: AMADO, Jorge. O Cavaleiro da Esperança: vida de Luís Carlos Prestes. Posfácio de Anita Leocadia Prestes. São Paulo: Companhia das Letras, 2011, p. 371-375.