O Globo e a Tragédia em Realengo: uma carta de repúdio à doutrinação e à falta de ética

12/04/2011 23:28

O Globo e a Tragédia em Realengo: uma carta de repúdio à doutrinação e à falta de ética

10/04/2011

Fabio Sooner

http://regames.wordpress.com/2011/04/10/o-globo-e-a-tragedia-em-realengo-uma-carta-de-repudio-a-doutrinacao-e-a-falta-de-etica/

 

Me pediram para “trollar” aqui o Globo pelo que foi dito sobre GTA, Counter-Strike e sua suposta “influência” no comportamento do atirador que matou diversos alunos em uma escola de Realengo, no Rio de Janeiro, esta semana. A princípio, não me importei porque essa associação é tão absurda que só gente com dois neurônios a aceita, e com esse pessoal não adianta discutir – eles não têm a massa cinzenta necessária para entender. Pelo mesmo motivo, ridicularizar e ironizar não adianta – entender sutilezas como ironia não apenas exige mais do que dois neurônios, como também a capacidade de perceber que as coisas não acontecem por uma relação direta de UMA causa e UMA consequência.

O problema é que, quando fui finalmente ler a matéria no Globo Online sobre o assunto (que só estou “linkando” aqui por contexto – me dói no coração dar acessos para um disparate desses), vi que o buraco é bem mais embaixo. O problema vai além da imagem dos jogos eletrônicos na mídia, e sim de uma tremenda falta de ética e profissionalismo jornalístico mesmo. Os autores quebraram duas das regras mais básicas do jornalismo para doutrinar os leitores com a sua visão pessoal sobre o fato – e nada impede que continuem fazendo-o em assuntos muito mais importantes do que videogames! Nesse caso, a injustiça com GTA e CS, e a demonização dos gamers em particular, ainda pode ser revertida com o tempo; porém, deixar “jornalistas” desse calibre impunes e livres para continuar com a sua interpretação particular de “jornalismo”  garante que ainda teremos muitas notícias tendenciosas a serem revertidas, em todas as áreas que eles cobrirem.

E em função desse problema, eis a carta que mandei para a seção de reclamações do Globo e para os editores do Globo Online, Claudia Moretz-Sohn (claudia.moretz@oglobo.com.br) e Eduardo Diniz (eduardo.diniz@oglobo.com.br). Conto com a maturidade dos leitores deste blog para seguir a mesma linha, de pedir aos editores que limitem o comportamento antiético e antiprofissional de seus repórteres, em nome da credibilidade e da seriedade do veículo. Encher o Twitter do “jornalista” Antônio Werneck com impropérios e one-liners, tal como adolescentes revoltados contra o sistema, não resultará em nada a não ser no possível aumento da má-vontade do sujeito com jogos eletrônicos; o caso deve ser tratado com seriedade, incluindo uma manifestação pública de repúdio da Acigames e, talvez, até mesmo uma reclamação formal junto à FENAJ (Federação Nacional de Jornalistas) e à ABI (Associação Brasileira de Imprensa). Vamos agir de maneira adulta e responsável e dar tapa de luva de pelica na cara de “jornalistas” como esses.

Subject: Tragédia de Realengo – Um pedido por mais profissionalismo e ética na redação

Gostaria de fazer uma reclamação sobre a absoluta falta de profissionalismo e ética dos jornalistas Antônio Werneck e Sergio Ramalho na notícia publicada em 09/04/11 no Globo Online, em http://oglobo.globo.com/rio/mat/2011/04/09/wellington-tinha-interlocutor-com-quem-falava-sobre-religiao-jogos-eletronicos-de-guerra-924198258.asp

No texto, os autores afirmam que, nos jogos eletrônicos GTA e Counter-Strike, “acumula mais pontos quem matar mulheres, crianças e idosos”. O problema é que em nenhum desses jogos sequer há sistemas de pontos, idosos ou crianças. Além disso, matar transeuntes/inocentes nestes dois jogos tem efeito imediato sim, porém negativo – em GTA, por exemplo, a polícia passa a perseguir o personagem do jogador, inclusive com helicópteros. O autor provavelmente estava confundindo os dois jogos com Carmageddon, jogo proibido há anos pela justiça brasileira, no qual o jogador controla um carro e atropela transeuntes para ganhar pontos.

Isso seria apenas uma imprecisão factual (ainda que com uma consequência séria, já que leva os leitores a demonizar jogos eletrônicos em geral em vez dos casos isolados com os quais a justiça já lidou), se um dos autores não tivesse confessado em seu Twitter que “jogos violentos como o GTA devem ser banidos. Evitariam mortes como na @emtassosilveira”. http://twitter.com/#!/WERNECKantonio/status/57087791594610689

O autor tem direito, como qualquer pessoa, à opinião dele sobre o assunto. O problema é que isso comprova que ele usou viés pessoal ao redigir a notícia, o que fere o princípio mais básico do jornalismo noticioso, que é se distanciar dos fatos. Isso põe em xeque as intenções do jornalista ao não verificar os fatos sobre os jogos eletrônicos citados – o que, vale lembrar, também é uma premissa básica do jornalismo. Fica claro que ele escreveu o trecho sobre “acumular pontos” usando o que veio à mente de sopetão, procurando algum argumento para validar a sua opinião pessoal, sem a menor preocupação com veracidade.

Sem distanciamento do repórter e sem verificação de fatos, não temos jornalismo, e sim sensacionalismo – ou, pior ainda, tentativa de doutrinação alheia. Isso é muito mais sério do que a imagem dos jogos eletrônicos.

Por mais que a tragédia de Realengo seja dolorosa e que se queira entender o que leva um sujeito a fazer o que fez naquela escola, isso não é motivo para jornalistas agirem de forma antiética, antiprofissional e tendenciosa, quebrando todas as regras básicas do bom jornalismo – seja para angariar mais alguns cliques, seja para supostamente “educar” os leitores usando as próprias opiniões. (Para isso servem as colunas).

Espero que a direção do Globo Online tome medidas drásticas contra este tipo de comportamento, em nome da credibilidade e do profissionalismo do veículo. Ninguém espera que todos aceitem jogos eletrônicos violentos, mesmo que estes sejam recomendados para adultos; mas todos esperam que se tenha um mínimo de ética jornalística, pelo menos.

Cordialmente,

Fabio Macedo
Translation Project Manager