Para além da hipocrisia

18/04/2011 03:44

Para além da hipocrisia

 

 

O significado mais profundo do caso Posada Carriles

 

 

por James Petras [*]

 

Os EUA recusaram-se a extraditar Luís Posada Carriles, terrorista confesso, para a Venezuela a fim de enfrentar o julgamento pelos explosivos postos num avião civil de carreira, os quais mataram os 73 ocupantes.

Muitos escritores e críticos têm escrito acerca da hipocrisia do regime Bush, que proclama uma guerra contra terroristas à escala mundial e aqueles que os protegem e simultaneamente abriga e protege um terrorista com longo cadastro como o Posada.

As implicações de os EUA proporcionaram um abrigo seguro para um terrorista como Posada vão muito além da questão da hipocrisia e do próprio Posada. O que está em causa é muito mais básico: um sistema de poder, redes de terror, políticas estratégicas e as estruturas profundas que informam e sustentam o império americano.

Posada era e é apenas um de uma longa série de terroristas que foram ou são agentes instrumentais das campanhas de desestabilização americanas. Miami está cheia de ex-Contras da Nicarágua, ex-paramilitares líderes de esquadrões da morte do Haiti, Colômbia, Vietnam e El Salvador. Hoje terroristas chechenos, que foram responsáveis pelo assassínio de 323 escolares e professores na Rússia, estão a viver com estipêndios americanos em Cambridge, Massachusetts. Estes terroristas são parte de um sistema de poder. Eles trabalham para os numerosos aparelho de polícia secreta americanos no exterior (CIA, DEA, DIA, NSC, SEAL, etc), os quais empenham-se em assassínios e sabotagens para fomentar os interesses imperiais americanos.

O terrorista Posada é um símbolo do para-estado internacional americano: extraditá-lo significa que todos os actuais terroristas que estão a trabalhar para os EUA perderiam confiança no seu pagador mestre. Ao enfrentar uma escolha entre cumprir com o direito internacional e um tratado bilateral de extradição com a Venezuela ou reter a "confiança" e proporcionar segurança às suas redes de terror, Washington escolheu a última opção. Empregar terroristas é uma espada de dois gomes. Posada depende da protecção americana e Washington depende de Posada permanecer silencioso acerca dos seus longas ligações com a rede americana de terror. Obedecer o direito internacional põe em causa as mais profundas estruturas do poder imperial americano, a face violenta por trás da fachada de propaganda democrática.

Posada, o terrorista confesso, não é uma "má memória". Ele é um lembrete hoje de que a tortura em Abu-Ghraib, Guantanamo e nas dúzias de centros de tortura por todo o mundo são parte de uma rede de terror americana à escala mundial. A rede de terror opera com milhares de agentes no Iraque, Afeganistão, Kosovo, Colômbia, Chechenia e em muitos outros lugares, os quais perseguem um objectivo comum — destruir movimentos anti-imperialistas para fomentar a dominação americana mundial. A campanha para forçar o governo americano a extraditar Posada dá uma bofetada não só contra um assassino desprezível como coloca em julgamento a rede de terror internacional da qual ele era uma parte essencial e que tem crescido para proporções de pesadelo nos últimos cinco anos.

Ao garantir asilo a Posada, o Departamento de Estado está a proporcionar-lhe impunidade. É uma mensagem destinada a todos os seus colaboradores, quer sejam bombistas em Bagdad, assassinos curdos, ou senhores da guerra afegãos. Os que assassinam para o império, se forem derrotados pelos movimentos de libertação nacional, como em Cuba, podem seguramente emigrar para os EUA. Aqui estará sempre um santuário de impunidade e uma gorda pensão de aposentadoria.

 

 

 

 

 

[*] Antigo professor de sociologia na Binghamton University, Nova York. Co-autor de Globalization Unmasked (Zed Books).  O seu email é jpetras@binghamton.edu .

O original encontra-se em http://www.counterpunch.org/petras06012005.html


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