A guerra suja no mercado de livros didáticos

18/05/2011 23:04


 

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Luis Nassif

 

Em maio de 1933, foram queimadas, pelos nazistas, milhares de obras consideradas impróprias à "verdadeira" cultura alemã. Em maio de 2011, assistimos no Brasil a algo parecido em nome da "verdadeira" Língua Portuguesa.

Se, em maio dos anos 30, participaram da queima, estudantes, políticos, autoridades e partidários do Nazismo, muitos sem saber o que estavam defendendo, neste maio de 2011, participam da queima do livro Por uma vida melhor, jornalistas, políticos, membros da Academia Brasileira de Letras e alguns intelectuais oportunistas.

O que estamos vendo hoje não é apenas uma polêmica, que, ademais, poderia ser sadia. O que testemunhamos neste momento é a execração pública de autores que seguiram, estritamente, concepções linguísticas as mais contemporâneas, parâmetros curriculares, frutos de longas discussões e pesquisas sérias, e o bom senso de condenar toda sorte de preconceito de linguagem.

O método lembra, em muito, aqueles tristes tempos: a verdade vem sendo imposta por repetição. Observem o que diz o Globo nesta última segunda-feira, numa tentativa clara de forçar o MEC a recolher os livros:

 

O Ministério da Educação informou que não se envolverá na polêmica sobre o livro com erros gramaticais distribuído pelo Programa Nacional do Livro Didático, do próprio MEC, a 485 mil estudantes jovens e adultos. O livro “Por uma vida melhor”, da professora Heloísa Ramos, defende uma suposta supremacia da linguagem oral sobre a linguagem escrita, admitindo a troca dos conceitos “certo e errado” por “adequado ou inadequado”.

 

 

Há na chamada pelo menos três erros grosseiros: o livro não defende supremacia alguma da modalidade oral sobre a escrita, visto que nenhum linguista defende supremacia, no que se refere às modalidades da língua; o livro não contém erros gramaticais (o que vem sendo repetido à exaustão), apenas cita frases com "erros"; os autores não "admitem" a troca dos conceitos de "certo e errado" por "adequado ou inadequado" (como se tivessem inovando neste aspecto). Eles simplesmente atendem a uma recomendação dos Parâmetros Curriculares Nacionais para a Língua Portuguesa, e a uma convicção dos estudos linguísticos atuais.

Portanto, só na chamada da primeira página do Globo há três equívocos gravíssimos de apuração - que, neste caso, seriam corrigidos com uma simples leitura mais atenta da obra e de documentos e teorias que a respaldam.

É no número de alunos atendidos (485 mil) que poderemos encontrar explicações para a dimensão que tomou a cruzada de alguns veículos contra o livro em questão. O livro da Global Editora ocupa um espaço precioso dentro de um nicho milionário do mercado editorial: o de livros didáticos distribuídos pelo MEC.

 

PNLD e oportunismo

 

Este foi o primeiro ano em que o Ministério também distribuiu livros em atendimento a programas de Educação de Jovens e Adultos. Trata-se, portanto, de um nicho a ser ocupado. Tanto que os livros recomendados ainda pertencem em boa parte ao catálogo de pequenas editoras: Escala, IMEPH, Aymará, Fapi, Base, Módulo, além da própria Global.

Vender para o Governo Federal pode implicar em ter que aceitar preços abaixo do mercado, mas o ganho é farto quando considerada a enorme quantidade de exemplares adquiridos pelo Plano Nacional do Livro Didático. Para 2011, por exemplo, o MEC comprou 135 milhões de exemplares, com investimentos na ordem de R$ 880 milhões.

Não se informa, na imprensa, em nenhum momento, por exemplo, que o livro passou por uma comissão de respeitáveis pesquisadores em linguística e língua portuguesa. E que eles destacaram como um ponto relevante na obra que "o aluno é chamado a refletir (...) sobre o respeito às variedades linguísticas não prestigiadas, o que promove um olhar sobre essa diversidade, tomando a variação como elemento identitário das línguas".

Ou seja: o que a imprensa vem condenando foi visto como ponto destacável na obra pelos avaliadores.

Além disso, a cruzada de alguns veículos da grande imprensa, repercutida de forma desatenta por veículos menores, tem deixado de fora os próprios linguistas. Sem contraditório, trata-se de uma campanha monofônica, com fins claros de destruir a obra publicada pela editora Global e cuja responsabilidade pedagógica é da ONG Ação Educativa.

Junte-se ainda ao preconceito, à ignorância linguística e à negligência profissional, o oportunismo leviano de professores e intelectuais que, sem lerem o livro, emitem julgamentos de valor que passam ao largo de uma apreciação atenta do texto. Como no caso de um ilustríssimo gramático que, aproveitando o linchamento público, não perdeu a chance de promover indiretamente sua própria obra, que se enquadra na tradição normativa.

O político que, de forma populista, chama o ministro às falas, e o membro da empoeirada Academia que sequer tem base teórica para fundamentar sua opinião, podem não ter sido mobilizados pelos mesmos motivos, mas, claramente, inconscientemente ou não, colaboraram, com os demais, para um dos lados na disputa sangrenta pelo mercado de didáticos.

 

História repetida

 

 

No caso do livro de história de Mario Schmidt, aconteceu o mesmo. Pouco havia no seu texto, com exceção de alguma diferença de estilo, que não se encontrasse também no material didático das grandes editoras, que acabaram arrematando o espaço deixado pela Nova Geração.

O que pode estar por trás desta celeuma, além do preconceito e da falta de informação já evocada em outro texto nosso, é uma guerra suja, com vistas a abrir novos espaços no setor de didáticos para o ensino da Língua Portuguesa.

Como da outra vez, a vítima é uma editora pequena, se comparada às gigantes do setor. E estas gigantes ou pertencem a grupos midiáticos ou creditam anúncios suntuosos, que fazem da redação do veículo a extensão do departamento comercial.

A ironia é que, qualquer que seja a editora, grande ou pequena, pertencente ou não aos grandes grupos de mídia, ela só poderá ter seu livro adotado, se atender aos mesmos requisitos que embasaram a obra "queimada" em praça pública.

O que se encontra na obra dos autores agora tão criticados não deixará de ser encontrado nos outros títulos. Mas sabemos que, quando as grandes editoras assumirem o espaço vazio deixado pelo livro execrado, nada se fará para denunciar o conteúdo que, em última instância, seguirá os mesmos parâmetros.

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P.S. Estava terminando de escrever este texto, quando li um artigo do jornalista Rolf Kuntz, no portal do Estadão, que dá uma ideia de como é a estupidez repetida em tom solene.

 

"O nome oficial é Ministério da Educação, mas podem chamá-lo Ministério da Desigualdade. Ministério da Incompetência também serve: a palavra tanto se aplica à atuação de seus dirigentes quanto se aplicará à condição das vítimas do padrão educacional proposto no livro Por Uma Vida Melhor, comprado e distribuído pelo governo".

 

Ele não leu a obra, não conhece a seriedade do trabalho da ONG, não sabe nada sobre os autores e parece não ter compreendido como se dá o processo de escolhas de livros didáticos no PNLD. A gramática correta do seu texto serve apenas para alimentar uma condenação a priori. De que adianta?

 

Luis Nassif - Introdutor do jornalismo de serviços e do jornalismo eletrônico no país. Vencedor do Prêmio de Melhor Jornalista de Economia da Imprensa Escrita do site Comunique-se em 2003, 2005 e 2008, em eleição direta da categoria. Prêmio iBest de Melhor Blog de Política, em eleição popular e da Academia iBest. Para enviar emails a Luís Nassif clique aqui.